Frases Soltas: Resenha: O Banquete

5 de outubro de 2015

Resenha: O Banquete



O livro começa com um diálogo entre Glauco e Apolodoro, eles conversam sobre um encontro de pensadores, que ocorreu na casa do poeta Agatão, do qual Apolodoro foi testemunha. Apolodoro satisfaz a curiosidade de Glauco, relatando a ele como foi o banquete em que vários filósofos discutiram sobre Eros, o deus do amor.

Fedro, exaltou a importância do amor Eros/ homens/ mulheres, afirmando que o amor procura o belo e repudia o feio, usando como justificativa as grandes cidades e os monumentos que foram construídos em função do mesmo. Para Fedro, o amor é o deus mais antigo e mais honrado, e devido a esse fato, ele é a causa de nossa virtude e felicidade. Ele usa o sacrifício de Aquiles, para vingar a morte de seu erasta, como exemplo de virtude decorrente do amor.

Pausânidas discursou em seguida, e discordou de Fedro, dizendo que o amigo somente fez um elogio ao amor, e que o deus, na verdade deve ser analisado como associado à duas "personalidades" de Afrodite, Urânia (onde o espírito e a erudição tem mais importância que o físico, um amor somente praticado por homens, com o intuito de aumentar o saber dos mais jovens e dar a eles virtudes) e Pandemia (onde a aparência física é mais exaltada que a alma e o espírito, é o amor popular praticado por todos, homens e mulheres). Segundo Pausânidas, o que define a beleza do amor é a forma como ele é praticado, se for feito de forma correta, se torna belo, se praticado de forma errônea, se torna feio. Levando em conta essas considerações, somente o amor belo (Urania) é digno de ser admirado, e que cada forma de amor deve ser atribuído ao deus a qual realmente pertence, e não visto como um só.



Erixímaco é médico e defende que a ciência médica e o amor e cuidado pelo corpo são derivados dos dois tipos de amor mencionados no discurso de Pausânidas. Ele discorda do argumento de Pausânidas que diz que somente o amor belo deve ser exaltado, afirmando que os dois tipos de amor se completam, devido a sua contrariedade, sua oposição.  

Aristófanes discursa sobre o passado da humanidade e seus três gêneros (macho, fêmea e andrógeno), que desafiaram os deuses e tiveram como   castigo a mutilação de seus corpos, a separação de suas duas metades. Essa separação causou a incessante busca do ser humano por aquele que vai completa-lo, que vai torná-lo novamente inteiro, um só. Esse sentimento causou morte por fome e inércia, e Zeus compadeceu-se dos humanos, transformando-os somente em homens e mulheres, onde a relação homem x mulher seria para procriação da raça e a relação homem x homem para a evolução da sociedade e boa convivência.  Ele afirma que o desejo do todo, da união, de virar novamente um só e ao deus que isso propicia é que se dá o nome de amor, e é a ele devemos louvar.

Agatão afirma que seus amigos só falaram sobre o impacto do amor sobre o homem, e não exaltaram o deus como deveriam, e seu discurso segue esse propósito. Ele narra a beleza de Eros (amor), fala sobre suas virtudes, sobre o quanto é sábio, harmonioso, infinitamente melhor do que os outros deuses na sua capacidade de justiça. Afirma que Eros é um poeta, e que descende dele todas as formas de arte conhecidas: música, teatro, poesia, arquitetura, enfim, que só o amor é digno de tanta exaltação, devido á sua grandiosidade e genialidade. Quando terminado seu discurso, os demais o aplaudiram calorosamente, concordando com cada palavra que ele disse. 

Sócrates usa o discurso de Diotima, uma mulher sábia, para contar aquilo que ele acredita ser a verdade sobre o amor. Ele conta sobre a origem de Eros, nascido de Pênia (Pobreza) e Poros (Estratégia) e afirma que na verdade, Eros não é um deus, mas sim um daimon (demônio/gênio), que ama o belo por ter nascido no aniversário de Afrodite, mas não possui beleza própria, sendo fadado a seguir o destino de seus pais, ser pobre e carente. Sócrates/ Diotima afirmam que amamos aquilo que não temos, o que achamos que é necessário, por isso procuramos um companheiro belo e cheio de qualidades para procriarmos, perpetuando a ideia de imortalidade. O amor seria a junção da atração pelo corpo (beleza exterior) e pela alma (beleza interior), somente a união do físico e da alma merece exaltação.   



O Banquete é um daqueles livros que te fazem ficar pensando sobre tudo que leu muito tempo depois de ter terminado a leitura. Confesso que muitas coisas que li e a visão dos pensadores sobre determinadas situações daquela época me deixaram um pouco consternada e não concordei com tudo descrito ali, o discurso que mais de aproximou do que eu tenho como definição de amor foi o de Sócrates, que usou Dionísia para revelar seus verdadeiros pensamentos e não causar qualquer situação desconfortável entre os demais, afinal, eram os pensamentos de Dionísia, não os seus.



A leitura foi muito interessante, cheio de citações, tanto que o meu volume ficou cheio de tags coloridas J. O livro é curtinho, a edição é pocket da LP&M e bilíngue, do lado esquerdo vemos o original em grego e do lado direito a tradução.



Então perca o preconceito bobo com edições pockets e leia esse clássico pra sair da zona de conforto, a leitura não é difícil, te força a pensar sobre coisas interessantes, te mostra mais sobre a cultura grega e te faz olhar com outros olhos para os pensadores que são tidos como sérios, mas que nessa obra são retratados como qualquer grupo de amigos que se reúnem pra beber um bom vinho e jogar conversa fora.


Recomendo.

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